RBL

Nas minhas idas à Rabulera há um antes e depois de 2011. Se antes, mesmo como forasteiro, era só mais um anónimo, depois, ainda na mesma condição, sou questionado por quem lá vive se vou ter com o Basil da Cunha.

A pergunta não é estranha. Quem acompanha o percurso do realizador, em que “Nuvem” é a primeira grande marca num percurso no cinema e simultaneamente no Bairro, sabe que quase todos os que ali moram já foram envolvidos por algum filme do Basil. Foram actores, figurantes, produtores. Emprestaram cafés, casas, adereços. Entretanto viraram assistentes de produção, argumentistas, técnicos de som.

Uma autêntica formação em contexto só possível porque a palavra que melhor define “Nuvem” e filmes subsequentes é: compromisso. E o substantivo não é alheio ao processo e ao resultado. É que desse modo, ao contrário das primeiras formulações cinematográficas nos bairros de autoconstrução da periferia de Lisboa, não há a síndrome da descoberta de algo de exótico com que ganhar nome.

Em a “Nuvem” a substância dos desejos e de uma vida de anseios comuns a todo o ser humano ultrapassa a tentação de voyeurismo comum na abordagem a estes territórios: uma permanente documentação do outro. Uma empatia ocultada, reivindicada pelo filme.

É evidente que uma história de amor também retrata uma realidade e o seu cenário. Isso é acolhido. Temos uma leitura do papel do homem e da mulher. Percebemos onde e como param os jovens. Conhecemos os rappers locais. Ouvimos o amolador, vislumbramos profissões, estrutura social e várias apropriações espaciais.

“Nuvem” desenrola-se numa territorialidade construída na resistência. A possível num país que continua a ignorar alguns dos seus filhos, o que se torna palpável na sequela “Nuvem Negra”, onde o que se construiu colectivamente fica em risco.

O Estado, consubstanciado nas acções do município, mexe em todo o universo dos moradores da Rabulera, criando debate e rupturas. A organização colectiva, através conexões não institucionalizáveis como os afectos, é uma ameça. Há que destruí-lo. À custa de uma alternativa que não conta com uma habitação digna, com as vizinhanças, com o comum; empurrando todos para uma espécie de fim de mundo.

Para os que se mantêm, fica a ruína como uma lembrança quotidiana contra a ousadia de resistir.

“Nuvem” e “Nuvem Negra” não são um emoldurado de arquivos a preto e branco. São vidas a cores num processo de humanização em curso.

Publicado na plataforma Novocine a propósito do lançamento dos filmes “Nuvem” e “Nuvem Negra” de Basil da Cunha

Leave a comment