Maquíavel diria qualquer coisa como “aquilo que ainda não sabemos que ai vem, vem.”. E penso nessa frase para qualificar o movimento das redacções, nas últimas semanas, que culminou com a retirada de espaços de opinião da Carmo Afonso, Cristina Roldão, Paula Cardoso, Ana Drago e Bernardino Soares.
Sabíamos que os tempos estavam a mudar, faltava perceber como, e entretanto, enunciou-se.
A este respeito gostaria de deixar três notas: uma de substância, uma financeira e outra política.
Não vou falar de jornalismo, mas no que respeita aos espaços opinião, na TV e nos jornais, ela está completamente fulanizada. Situam-se algures entre tricas palacianas e as Cenas da Foz de Camilo em versão bera. Os clickbaits parecem proteger essa opção, mas no essencial, afasta-se a hipótese de falar das vidas comuns de muitos, das substâncias das vidas ou, como se disse cá em casa, dos sítios que têm pó. Acabou a política, vigorou a politiquice. Tudo para que se mantenha uma certa alienação, porque falar e escrever dos quotidianos sentidos pode ser perigoso.
Desengane-se quem ache que é uma opção comercial. A título de exemplo, não tenho dúvidas que os artigos da Carmo Afonso seriam dos mais lidos no panorama nacional. Olhando para os prejuízos dos diversos grupos media, quase todos na ordem dos milhões de euros anuais, percebemos que a sua ambição não é a sustentabilidade de cada projecto, mas sim o soft power e respectivas externalidades que os seus proprietários podem adquirir em campos económicos realmente mais lucrativos e próximos do seu core business.
Olhando para o grupo de cronistas afastados, onde de resto me posso incluir, dá a sensação que as opções editorias trabalharam como haters da rede social X, achando que somos todos o mesmo: de wokes à extrema esquerda. É evidente que não somos. Entre nós há várias tendências políticas, formas diferentes de ver a vida, modos de escrever diversos e, certamente, bastantes antagonismos.
Agora, para os proprietários dos grupos de media em Portugal , quase que diria: todos alinhados com uma direita política, este grupo de cronistas serve-lhes como uma aliança quando a esquerda do centro vigora. Uma espécie de aliados involuntários para a ascensão da direita ao poder. Missão cumprida, e agora há que ocupar esses espaços com aqueles que estão na oposição mas que costumam ser poder. Não vá o diabo tecê-las.
A limpeza profética anunciada em campanha eleitoral começou e não vai ficar por aqui.
Leave a comment