A PERGUNTA DE MONTENEGRO AOS PORTUGUESES

Na passada sexta-feira, dia 28 de Fevereiro, Luís Montenegro endereçou uma pergunta aos portugueses:

“Exigirem-me que eu deixasse completamente de ter vida própria apenas para ser primeiro-ministro, sinceramente, eu coloco essa questão aos portugueses, pergunto se é esse tipo de políticos que nós queremos ter, que não tenham mais nada.”.

A resposta devia ser sim, embora numa acção concertada – acho que nunca vista – cinco ministros estiveram quase em simultâneo, um em cada canal de notícias, a tentar explicar pelos portugueses porque é que a sua reposta devia ser não; ou seja, que é tranquilo o PM ter outros rendimentos enquanto exerce o cargo.

Ainda assim, os argumentos são parcos.

1.

O primeiro argumento mistura atitude e narrativa, e é a forma como Luís Montenegro apresenta-se como um pater familias, o verdadeiro patriarca posto perante uma situação que vais exigir toda a sua gravitas. Percebo a tentativa de colar-se a um qualquer conservadorismo arcaico, rejuvenescido por renovados assaltos ao poder por este mundo fora, mas isto, de seriedade e compromisso com esses valores originais, não tem nada.

Reparem, apesar de parecer estar a defender em público o bom nome da sua família, foi ele que a entregou de bandeja e cobardemente na praça pública. É ele: o empresário, o angariador, o asset; que resolveu expôr a família como seu próprio escudo, tentado forjar a empresa à sua mulher, agora aos filhos, usando-os para a aquisição de apartamentos.

A outra parte deste argumento, é a salvaguarda do património e herança da prática profissional de toda uma vida que agora, o desígnio da política e do país, parece querer roubar. Neste seguimento, também é ofensivo tomar os habitantes do rectângulo como tolos.

Ainda nem era licenciado e Luís Montenegro já era vereador da Câmara Municipal de Espinho, cidade em que foi lider da JSD. Entrou no parlamento em 2002 e, nas interrupçoes da política formal, os seus ganhos estiveram sempre associados a relações financeiras movidas politicamente. Dos ajustes directos dos municípios liderados pelo PSD na sua área geográfica às avenças dos amigos empresários.

Luís Montenegro não é o ourives que deixou a oficina para ir governar, o professor que congelou a carreira, o CEO que deixou a empresa ou o trabalhador com uma licença sem vencimento para se tornar servidor público no governo.

Para o nosso Primeiro Ministro, não ha descontinuidade entre ser político e os seus ganhos financeiros.

Infelizmente é uma prática que se alastrou. Se consultarmos os cv´s dos nossos governantes observamos que uma boa parte, desde muito cedo nas jotas, saiu da faculdade directamente para administrações de empresas, para firmas de advogados de topo ou para cargos de política pública e governativa. Tudo a que um excelente aluno ou alguém com uma carreira, nem penando alcança.

2.

Há quem cante que os políticos ganham mal e que desse modo vai ser difícil atraí-los para a actividade, e tem-se aplicado esse critério ao caso de Montenegro. É um argumento usado de forma mais transversal, também abraçado no comentariado geral do país – a dita bolha – onde há muito pouca noção do país onde se vive.

O ordenado de Primeiro Ministro é de mais de 8 mil euros com despesas de representação, o que corresponde a 10 vezes o salário minímo, 6 vezes o salário médio e está no topo, no grupo de 1% que mais ganha no país.

3.

Concordo com Luís Montenegro quando disse ao país que não tem de dar mais explicações. Estão dadas: o primeiro ministro quer receber avenças mensais no valor superior ao seu ordenado enquanto governa. Fê-lo, recebendo dinheiro de grupos empresariais sobre cujos interesses económicos governa e toma decisões. Fê-lo, quando o seu mandato é de exclusividade. Fê-lo, de forma opaca e sem se perceber que actividade concreta realizou para essas empresas.

Para o justificar, vão enchendo a audiência daquelas tecnicicidades de que estamos todos cheios, pois sabemos bem o que significam: “O dinheiro não é dele, é da empresa.” “A empresa não é dele, é da mulher.” “Afinal é dos filhos.” “O dinheiro da compra dos apartamentos não foi declarado porque estava espalhado em contas à ordem com poupanças menores do que as que exigem comunicação”.

Agora é preciso dizer-lhe que não dá. O país tem regredido em todas as áreas sectoriais, e não se governa para os eleitores. O compromisso de Montenegro é com quem lhe paga avenças e não com o povo e bem estar geral. Até aqueles que votaram nele não deviam permitir a naturalização destas práticas. Este governo é mesmo para cair.

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