I
Nos ultimos dias tem-se dado destaque à presença contestatária da comunidade cigana nas acções de campanha do Chega e do seu líder André Ventura. É um destaque distraído. A comunidade tem estado presente na rua a contestar André Ventura, desde que ele ainda era um militante do PSD a candidatar-se à Câmara Municipal de Loures em 2017.
Dizem os critícos que este tipo de contestação favorece André Ventura. Talvez, mas é também uma questão de como é que as modas se fazem. A maior parte dos media acaba por filmar um grupo alargado de ciganos a chamarem-lhe racista para depois fazerem um zoom in em André Ventura, que sossegado e bem rodeado da sua segurança e entourage, manda-os “ir trabalhar” (com direito a legendas) enquanto entra no carro. O mais caricato é que estes acontecimentos dão-se quando Ventura aproxima-se do local de trabalho dos ciganos ali presentes, atrapalhando até o seu labor.
E agora pergunto: onde estavas tu quando o Chega e o André Ventura montou toda a sua estrutura partidária e popular à conta do ódio aos ciganos? Que membros da comunidade cigana os media convidaram nos últimos oito anos para rebaterem na mesma proporção as acusações que André Ventura lhes foi fazendo? Onde estavam a maioria dos partidos? Onde esteve a a justiça este tempo todo?
Na ausência de todos estes meios, sobrou à comunidade cigana a rua, onde esteve, a lutar pela sua sobrevivência, a lutar por todos, enquanto nós não estivemos em lugar nenhum.
II
Por coincidências do tempo – ou não – todas estas situações são atravessadas pela cobertura mediática ao Nininho Vaz Maia por ser arguido num processo.
Nininho construiu a sua carreira por si, numa interação directa com um público de centenas de milhares pelo país fora. O seu percurso nunca teve grande espaço noticioso, a não ser quando se tornou incontornável, por ter sido o primeiro cantor cigano – e um dos poucos em Portugal – a conseguir esgotar duas noites consecutivas o meo arena em Lisboa, no passado Março.
E, eis que, por ser arguido num processo em que nem se quer é o principal visado, nem foi presente a juiz, ja tem direito a mais cobertura noticiosa em quatro dias do que alguma vez teve em toda a vida.
Claro, o país não poderia continuar sossegado com um cigano como um dos seus maiores icones.
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