NOTÍCIAS DO RIO

Dão-nos vistas aéreas onde não se vê gente. Vemos terraços, depósitos de água e a armação de betão incompleta: é o kit de sonho que o Brasil ofereceu a seu povo, de um dia completar onde e como vive. Ouvem-se rajadas e veem-se seus tracejados no ar. A paisagem é narrada pelos informes das forças políciais via conglomerados media: nº de mortos, nº e fotografia dos fuzis apreendidos, nº e fotografia dos detidos.

Para quem se deixa ser informado consecutivamente desse jeito, promovendo as vitórias de uma tal de segurança pública, pouco importa quem morre. As mais de duzentas mil pessoas que habitam os Complexos da Penha e do Alemão não existem socialmente, estão mortas à partida.

Nem têm direito a balas perdidas. Não há azares.

Só começamos a ver os mortos quando o povo os recolhe para os devolver a familares e até esses demoram a entrar nas contabilizações oficiais.

Daqui e dali niguém sabe.

Ninguém sabe o que é estar deitado no chão durante duas, cinco, oito horas enquanto as balas zumbem perto dos ouvidos e do cabelo. Ninguem sabe o que é não saber dos filhos, mães, amores durante tanto tempo. Ninguem sabe o que é esperar horas só para ter a incerteza da certeza de que alguém próximo morreu. Ninguém sabe quando vai partir ou chegar. Ninguém sabe quando recomeça porque todos sabem que nunca acabou.

As facções criminosas do Rio nasceram da violência do estado e sua falência, assim como o PCC nasceu na consequência do massacre de Carandiru (a violência de ontem já fez superar os números oficiais desse massacre).

Política de segurança não é executar adolescentes nas comunidades populares (sim, porque vocês ainda acham que alguém disse: “mãos ao alto!”.). Quem faz distribuir aquelas drogas e aquelas armas (grande parte vêm desviadas das forças de segurança) continua a aterrar directo do heliporto para a penthouse onde habita. E quem faz promover estas acções continua a querer promover a sua vaga laboral via eleições enquanto recebe dinheiro dos primeiros.

Política de Segurança Pública é educação, cultura, emprego, bons salários e redistribuição de riqueza.

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