O candidato Ventrim e o suspiro enganador: o rescaldo da primeira volta das presidenciais

Quando com o alto patrocínio dos Estados Unidos da América Pinotchet tomou o poder pela força no Chile, a encomenda era mais vasta do que apenas derrubar Allende. A um menu militar, de tortura e homicídios; adicionou-se uma excursão de economistas que vinham a ser treinados pela Universidade de Chicago com a tutoria de Milton Friedman e com o apoio institucional da Ford e Rockefeller Foundation. O Chile seria o laboratório para a implementação das políticas económicas neoliberais que viriam a ser hegemónicas nas décadas seguintes em todo o globo.

Mais tarde Friedman viria a dizer que a ditadura de Pinochet foi o caldo ideal para aplicar tais medidas económicas: não poder contestar a fome dá sempre jeito aos que querem enriquecer mais. É por isso que o Chega e a IL são as duas faces da mesma moeda. Um diz mata o outro diz esfola.

Enganam-se os que ficaram a achar que Cotrim decidiu-se pela neutralidade. O seu discurso de derrota foi dedicado ao anti-socialismo (essa ideia abstracta que não existe em Portugal e muito menos em António José Seguro), e é por isso um empurrão a Ventura.

Já no partido do governo houve amadorismo extremo. Usaram a formula de Marcelo na década errada. Maques Mendes corporiza tudo aquilo que é chamar de burros aos eleitores. Como li algures: um forte abraço à Clara de Sousa por 16 anos desperdiçados.

O destino de Montenegro era previsível. Está governar como Ventura em boa parte o faria e já foi comido pelo mesmo. Dá-lhe muito mais jeito ter Seguro como Presidente mas não pode escaldar Ventura. Ainda assim, para Seguro, dá-lhe muito mais jeito que o partido do governo não lhe preste o apoio.

Aparentemente muitos suspiraram ontem, mas digo-vos: é um suspiro enganador, porque mesmo com o candidato da “esquerda” que a direita gosta a ter um resultado acima do esperado na primeira volta, nada garante que vá ser eleito.

De algum modo, a situação é paralela à de 1986 mas no quadrante oposto. Ventura passou à segunda volta com 23% dos votos mas faz parte da actual maioria sociológica de direta do país que ultrapassa em grande medida os 50%. Ou, de outra forma: onde vai Seguro buscar os 20% que lhe faltam?

Apesar de perceber o que está em causa, não me parece que uma campanha de barricada em nome da democracia, da ética e da seriedade vá ter o efeito esperado. Os eleitores já demonstraram inúmeras vezes que são imunes a chantagens morais. Perdeu-se a sensação de progressão, mobilidade social e de aspiração. O que os eleitores querem é uma visão concreta para as suas vidas e não um conjunto de pessoas privilegiadas a dizerem-lhes o que devem moralmente fazer.

Ainda assim, Ventura é sem dúvida um dos grandes vencedores deste processo. Já está a dominar a agenda política. Muitos eleitores vão inaugurar o seu voto nele e fazer recuar o seu nível de rejeição. Vai ter uma votação superior a que alguma vez teve, e superior a qualquer eleito a primeiro ministro dos últimos tempos. E é esse o capital político que lhe interessa para almejar governar o país em breve.

Quanto a nós, que já estamos há muito num tempo de mal menor, já não são as instituições que nos vão salvaguardar. Vamos ter de criar as nossas redes de soldariedade, cada vez mais amplas na acção.

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