DESAFIOS SOCIAIS 2026

Neste fim de ano o país foi assaltado pelo desígnio de melhor economia do ano da OCDE, numa qualificação da revista The Economist. Talvez imbuído por esse espírito consagrador, Luís Montenegro na sua mensagem de Natal aos portugueses, anunciou que neste país ninguém ficará para trás.

Finda a leitura do primeiro parágrafo, uma aura de optimismo invade os nossos corpos para 2026, mas se lermos para além dos cabeçalhos, percebemos que as variáveis seleccionadas pelo The Economist para o primeiro lugar do podium dizem pouco sobre as vidas de quem reside em Portugal e mais sobre a circulação de dinheiro; assim como para Luís Montenegro, o “ninguém fica para trás” depende mais da capacidade de superação de cada um do que das condições objectivas que o país tem para oferecer a todos.

De modo a perspectivar os desafios sociais para 2026, começamos por aquelas que têm sido consistentemente as principais preocupações dos portugueses, todas de índole social: economia doméstica/custo de vida, habitação e saúde:

– Em Dezembro de 2025 o preço do cabaz alimentar foi 5,22% mais caro que no ano anterior, um valor percentual equivalente ao aumento do salário mínimo para 2026, lembrando que outros bens essenciais como a energia ou a habitação têm maior peso percentual nas famílias mais empobrecidas que nas restantes;

– Após quase dois anos destes dois governos da AD, já é possível mesurar alguns impactos das suas medidas para a habitação. Desde o “Construir Portugal” – a primeira estratégia para a habitação do primeiro governo de Luís Montenegro, o preço de venda de habitações aumentou 27% e o aumento de um ano para o outro foi de 17%, o maior desde que há registos do INE;

– Já passaram centenas de dias dos primeiros sessenta do primeiro governo de Luís Montenegro em que foi apresentado um Plano de Emergência e Transformação na Saúde e, as listas de espera continuam a aumentar bem como o número de urgências encerradas. Empurra-se os que podem para despesa no sector privado e este modelo de funcionamento do SNS vai encarecer, um custo para todos.

Assim, a superação sugerida pelo primeiro-ministro na sua mensagem de Natal será mais o substantivo para sobreviver, já que as condições apresentadas ficam muito aquém de enaltecer a potência de cada português.

Alega-se pela produção de riqueza para atacar os problemas sociais, mas sabemos que ela é cada vez menos distribuída. Basta como exemplo empírico olhar para a cidade de Lisboa: tem sido o concelho com maior PIB por habitante e estatisticamente é o mais desigual do país com um coeficiente de gini de 42,5 % bem acima da média nacional (36,7% em 2022).

Contudo, boa parte da política pública e social é decidida a nível local, através das autarquias cujas responsabilidades aumentaram com várias transferências de competências. Assim, na área social, habitação e educação (em especial nos primeiros anos lectivos) os municípios são cada vez mais decisivos. As últimas eleições autárquicas criaram novidades políticas executivas, em que os dois municípios mais populosos do país: Sintra e Lisboa, num total de quase um milhão de pessoas, estão a ser governados oficialmente (Sintra) e oficiosamente (Lisboa) com coligações e acordos que implicam o Chega. É uma novidade que deve a nossa atenção, porque parece que muitos vão ficar para trás. Em Lisboa já há a promessa e acordo de privilegiar o acesso a creches a cidadãos de nacionalidade portuguesa.

A má condução de políticas públicas dos últimos anos em Portugal permitiu o melhor aproveitamento actual de narrativas culpabilizantes dos mais empobrecidos pelo seu destino. Estamos num país em que se prefere institucionalizar um jovem (num centro educativo ou no sistema prisional), mesmo sabendo que o valor anual despendido para o efeito daria para criar num contexto territorial mais vulnerável um projecto que chegasse a centenas de jovens ou; onde se prefere gastar três mil euros por mês na institucionalização de uma criança ao invés de apoiá-la no seu meio natural, junto dos seus.

2026 vai-se apresentar como mais um ano de uma sociedade quebrada. Vai elevar mediaticamente diversos casos singulares de pobreza, de falta de solidariedade colectiva e de demissão pública.

Há um grande trabalho político e narrativo a fazer. Em Portugal, vai mais dinheiro público para o quintil dos mais ricos do que para o quintil dos mais pobres (Society at a Glance, OCDE 2024), uma correlação em que o país fica no fim da tabela (uma de que não se fala) porque em quase todos os países da OCDE o dinheiro público vai em maior parte para o quintil dos mais pobres. Não admira que percamos tanto tempo político a discutir o destino dos trezentos milhões de euros anuais para Rendimento Social de Inserção e nenhum sobre os quinhentos milhões de euros anuais em benefícios fiscais apenas a vinte empresas.

Publicado na primeira edição da Revista Visão de 2026

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