O GRITO DA SEREIA

Dizem que o som sobe.

A cidade organiza-se em jeito dos exploradores face aos explorados. Lá em baixo a água, o início infinito da trémula vida dos pescadores. As industrias de transformação, e o porto que exporta os produtos das várias mãos esfoliadas agressivamente pelo sal. A seguir os paços com bandeiras, de tectos altos e secretárias onde se sentam os convenientes da situação. Nas praças, em frente aos paços, ficam os palácos e palecetes de várias categorias de donos disto tudo. No meio, ligando essas praças de paços e palácios, ficam corredores de habitações dos doutores, professores de renome, escriturários, juristas e outras profissões da burguesia local.

Segue-se o obstáculo natural que permite esconder no alto a cidade da lama, para que lá em baixo se simule que está tudo bem. E é lá em cima que o som tem de chegar: o grito da sereia, ou de várias. O canto hipnotizador faz reflexo condicionado e dá-se o frenesim. Crianças largadas ao cuidado de terceiros, e a correria de mulheres, monte abaixo em busca das vagas disponíveis na conserveira.

É à jorna. Às vezes nem isso, só à hora. O pagamento não dá se quer para um pão inteiro.

Arriscando uma expulsão perpétua do direito ao trabalho, esquemas de aventais permitem desviar peixe para receitas de resistência. O desvio também acolhe as folhas de aluminio das latas de cinco quilos das conservas: junto com os barrotes vão fazer parte dos telhados das suas casas.

No fascismo resistiu-se e na revolução, estas mulheres, outras e outros, fizeram a jornada épica de conseguir: salário mínimo, direito à greve, proibição de despedimentos sem justa causa, licença de parto, estabelecimento de período de férias, número de horas máximo de trabalho semanal.

Construiram as associações de moradores, transformaram espaços abandonados em creches, exigiram centros de saúde. Desceram ao esfalto, ocuparam casas vazias e exigiram que lá em cima também fosse cidade, de casas a sério e arruamentos, com escolas e parques.

Ainda vamos a meio e já nos querem tirar o que conseguimos. Na vigência deste governo tivemos o maior aumento anual registado pelo INE nos preços da habitação: 17%. Desde as primeiras medidas para a habitação de um executivo liderado por Luís Montenegro: o Construir Portugal, o preço da habitação já aumentou 27%. No meio desta crise, o governo acaba de promover medidas para facilitar a vida a herdeiros e promover despejos.

Não é o Luís, o Leitão Amaro ou a Maria do Rosário que vão tratar do melhor para nós. Nem tão pouco os media e os mediums que distraidamente continuamos a reclamar como nossos.

Temos de tomar o assunto como nosso. A rua também é media e é lá que vamos disputar com os nosso argumentos. Dia 21, Casa para Viver em todo o país.

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