PORTUGAL É UMA FICÇÃO

Os império e o estado nação conduziram-nos para a criação de ficções que impõem uma pertença qualquer. Um traço no mapa forja as nossa guerras, dando nós o corpo e a vida por quem usou a caneta.

Uns bons percursos pela Raia entre Portugal e Espanha, das margens do Guadiana às do rio Minho, passando pelo Couto Misto permitem perceber que as relações entre os dois lados da fronteira são mais estreitas do que eventualmente com as respectivas capitais de distrito de cada um dos povoados – quanto mais com as respectivas capitais.

Não sei se a correspondência temporal da implementação da política do espírito de António Ferro do Estado Novo com o alavancar dos mass media (cinema, rádio e tv) em Portugal; não foi decisivo para a estagnação num pensamento retrógado.

Ou, uma coisa é certa: não houve investimento suficiente em 52 anos de democracia para alterar narrativas e imaginários. A toponímia não mudou consideravelmente, continuamos a chamar “feitos” a actos de genocídio, acreditamos que alguém se entalou numa porta do castelo para que cruzados saqueadores pilhassem a cidade (desculpem, conquistassem aos mouros), que o filho bateu na mãe para criar Portugal e que os que vêm de fora são uma ameaça.

Apesar da revolução, ficámos sentados sobre a mesma pedra de sempre. Na perpetuação dessa sequência, e como bons eurocêntricos – ainda para mais periféricos – levantámos o mais possível uma bandeira, gesto só possível com muita mentira e alucinação. Relevante seria criar um espaço no mundo de questionamento, reconciliação, justiça e paz.

Por isso, não me espanta que, neste rectângulo traçado a que chamam Portugal, o avistar de um grupo de jovens a remos ao largo de Oeiras, seja motivo de alarme popular e institucional por possível desembarque de imigrantes nessa terra d´el dourado de Isaltino Morais. Mobilizando ainda a PSP, a GNR, Polícia Marítima, patrulhas das águas etc.

Podia ser uma aula de remo? Um grupo de expats da Nova SBE a curtir a tão publicitada “California da Europa”? Um grupo de pescadores? Uns jovens locais a curtir?Podia de facto ser tudo isso, seria até o mais provável mas assim não seria Portugal, em o que é não pode ser e o que pode ser não o é.

O nosso dia-a-dia é feito destas patranhas. Vivemos num país que subsiste numa realidade forjada, que se torna real para muitos de nós, servindo as elites e deixando o resto na merda a lutar uns contra os outros.

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