Não lembro de observar tanta concordância no espaço público mediático. Nos últimos dias, é abrir o separador de opinião de um qualquer jornal e: “pau!”, “pau!”, “pau!”, tudo para o mesmo lado. É ver aqueles painéis televisivos onde um indigente intelectual solitário flui por tudo o que lhe apetece e: “pimbas”, “pimbas”, “pimbas”; opiniões convergentes transformadas em dezenas de “reels” para redes sociais. E até, hum!, estão a ver aqueles progrmas de debate político com mais de um intérprete, em que é suposto dar uma ilusão de que têm opiniões diferentes, que uns são de esquerda e outros de direita? Pois, todos em uníssono para a mesma tendência.
Ora, olhando ao meu redor e para a situação concreta das vidas, seria de uma felicidade que essa convergência da opinião pública mediática fosse sobre o preço recorde do cabaz alimentar básico, sobre os nossos salários baixos ou os custos incomportáveis da habitação. Mas não, a ira colectiva é sobre a desistência de um conjunto de artistas de um festival de comédia, em nome de valores que pelos vistos dizem muito pouco a quem tem espaço mediático. Os desistentes viraram párias.
É evidente que não sou ingénuo nem previa outro panorama, embora haja óbvias consequências dessa ausência de contraditório, nomeadamente o uso de mentiras, desinformação e facciosismo; induzindo muito público em erro.
Quando me convidam para um painel de debate dentro de um evento maior, informam-me da natureza do evento e dos parceiros de painel. Normalmente só tenho acesso à totalidade do programa quando ele já está finalizado ou até comunicado publicamente. Usando aqui as expressões do Jovem Conservador de Direita, se de repente me deparo com o Doutor Hitler como cabeça de cartaz, é evidente que me retiro do mesmo.
Isto porque diz-se muito por aí que em Abril esses artistas estavam muito felizes por constar na programação final com o Seinfeld e que entretanto esse prazer virou desgosto.
Muitos dos artistas aceitaram o convite para o dito festival, sabendo que o conceito previa a vinda de um cabeça de cartaz estrangeiro mas sem a nomeação do mesmo. Ou seja, quando Seinfeld entra em equação, e ainda por cima dominando completamente a comunicação do cartaz (em dimensão, nos diversos suportes e na guerra da atenção), os artistas já tinham dado o seu ok, com contratos assinados, etc.
Uns, e perante a notícia, ficaram na expectativa de que o seu desconforto – e de algum público – fosse colmatado pela organização do Commédia à La Carte, anulando a vinda do humorista norte-americano. Outros, aproveitaram este tempo de discussão e debate para aferir os posicionamentos públicos de Seinfeld sobre Gaza e os palestinianos. Enquanto eu sou contemporâneo da serie “Seinfeld” e acompanho o percurso do homem desde então, para outra geração, a série não é mais do que uma sitcom vintage que passa em canais de cabo (lá para o número sessenta e tal) ou que está num fundo vazado de uma plataforma de streaming qualquer, pelo que o debate que se instalou foi essencial para essa tomada de consciência.
Muitas das desistências foram feitas em privado, pelos canais formais, tornadas depois públicas, não só para não enganar o público mas para que se perceba que não querem ser apêndices de um programa construído em torno da figura de Seinfeld.
Também se tem ouvido por aí o argumento de que as desistências os afastam das pontes que o mundo tanto precisa. Bem, não sei o que esperam, que a anuência de artistas perante o cenário configurado constítua um caminho para quê? Para que, para a próxima, a organização não faça o mesmo? Para que o Seinfeld deixe de ser um apoiante do genocidio? Acho mesmo que aqui há um problema de análise da realidade histórica. Quantos mais palestinianos terão que morrer enquanto nos falam em fazer pontes? Para essa gente só haverá pontes quando a Palestina e o seu povo forem arqueologia.
Quanto aos epítetos de antidemocrático e censura, parece-me exactamente o oposto. A partir de um debate público, os artistas tomaram uma decisão – e julgo que neste país ainda são livres de o fazer – de não participar no festival. Não sei como estão a comparar o incomparável. Os artistas sionistas mantêm os seus espectáculos, os jornalistas sionistas mantêm os seus trabalhos e os seus rendimentos intactos. Já os agentes públicos contra o genocídio e solidários com a Palestina, bem, se moram nos territórios ocupados, já foram mortos ou estão presos; se estão no estrangeiro, não são chamados para nenhum lugar de destaque ou têm os seus gigs cancelados – veja-se o caso dos Bob Vylan e de Macklemore – com impacto nos seus rendimentos.
Aliás, nem percebo como é que o conjunto de humoristas e comentadores com hobby de escritores, que estão tão indigandos com os desistentes, não se chegam à frente para preencher as suas vagas. É que ao menos os “desistentes” tomaram uma atitude com base nos seus valores políticos e humanistas, já os outros apenas estão sentados no seu privilégio mediático a cuscar.
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