Jimmy McNulty: If Snot Boogie always stole the money, why’d you let him play?
Snot Boogie’s Friend: Got to. This America, man.
Snot Boogie´s jaz no beco. Morreu, foi morto. Diariamente Snot dirigia-se ao beco de noites infindáveis de jogo dos dados a dinheiro. Todas as noites Snot tentava fugir com o dinheiro. Todas as noites era apanhado, no que se tornou uma tradição ritualista e tradicional, até ao dia em que correu mal. Perante o óbvio, o detective pergunta do porquê de o deixarem jogar, ao que responderam “got to, This America, man”, aqui entendido como um ambiente cultural favorável a que esse tipo de práticas possam acontecer.
Não sei se há algum tipo de comparação seminal entre o que se passou hoje nas mobilizações de rua contra o pacote laboral e a primeira cena da serie The Wire, mas foi uma das imagens que me veio à cabeça. Essas imagens e, aproveitando filiações filosóficos de muitos dos presentes, a frase: “a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa”
Dia 3, dia 11. 2011, 2012 (1), 2012 (2), 2013. Greves gerais de itinerário repetido.
Governos que nos querem matar à fome. Povo, nas suas múltiplas apropriações: trabalhadores, desempregados, filiados e não filiados, sindicalizados e/ou subversivos; jovens, adultos e ainda mais adultos.
Serpenteia-se a Calçada do Combro, dando densidade às massas que desaguam em frente ao parlamento. Quando acabam os discursos e os sindicatos fecham formalmente a manifestação, metade dos manifestantes ainda nem conseguiu vislumbrar o parlamento.
A estes, últimos, milhares, é-lhes oferecida uma orfandade organizacional que permite às forças policiais ter uma liberdade de acção mais abstracta – até porque a manifestação já acabou mesmo que não se tenha acabado o percurso. Mas pior, retira o poder a milhares de pessoas: esfomeadas, revoltadas, precarizadas de fazer a sua encenação política, catarse e protesto junto à representação legislativa.
É aí que tem entrado a polícia, para limpar o largo do parlamento “libertando a circulação” e terminando com aquele convívio de “rufias”: o cota que ainda quer mandar uns impropérios em direcção ao parlamento, os militantes de vários grupos que ensaiam outras palavras de ordem, jovens que se acabaram de conhecer e partilham uma cerveja sentados no chão, os adolescentes que cantam em redor de uma coluna e os sozinhos, que não têm grupo mas sabem que têm de estar ali.
Sim, é nesse momento que para o comandante operacional da PSP a manifestação tornou-se “violenta” que foram “encurralados e obrigados a”. A violência na verdade não é mais que a ocupação do espaço por pessoas não institucionalizadas – em especial em frente ao parlamento. Desafio-vos a a ver as imagens, de forma cronológica e sem os relatos da tv.
A idade já me permite exercícios de memória. Em 2024 mais de um milhar de bombeiros invadiu a escadaria do parlamento. Resposta da polícia: zero violência. Em 2013, dez mil polícias em protesto subiram a escadaria até à porta do parlamento a gritarem “invasão”. Resposta da polícia: zero violência.
Os organizadores acotovelam-se para informar que o que se passou já não é da sua responsabilidade – foi pós-manifestação – e que o desfile organizado foi mais uma prova ordeira da força dos trabalhadores. (E os que ficaram são o quê?) Os partidos de esquerda ficam muito chateados porque as acções de uns poucos vândalos fez a acão da direita boicotando mediaticamente a greve geral (sim, como se houvesse uma cobertura digna da mesma e fossem estes media a fazerem-no). Uns e outros, pelo meio, ainda inventam movimentos extremistas não existentes.
Alguns dos de cima, ainda aplaudem a acção da polícia, e até torcem pelo sofrimento dos detidos: ninguém lhes mandou estarem doentes de “esquerdismo ou algo que o valha”.
Eu não estou na luta com gente que pensa assim. A violência policial estará sempre presente contra a turba de descontentes. Seja nos espaços do quotidiano daqueles que este sistema tornou mais vulneráveis: locais de trabalho, nos transportes, nos bairros, quer nos espaços da cidade onde queremos reivindicar. Pode até ter gradações diferentes de violência, mas é articulada e pretende o mesmo. O que aconteceu ontem foi parte dessa articulação. Foi organizada, pensada e deliberada. Sabendo que em resposta os camaradas bem comportados acabam o serviço da polícia, etiquetando as vítimas como culpadas através de uma serie de definições da década de XX do século anterior.
Nos tempos que correm, se é desta malta que estás rodeado: sem disponibilidade para articular a violência policial como gesto repressivo do sistema contra o qual lutamos? então prepara-te para acabar detido, processado, magoado e sozinho porque, como disse um companheiro de luta ontem: “Isto a partir de agora não vai ser calmo….”. A luta contra o que estamos a viver vai ter de ser feita de forma diferente, ou mais vale ir para outro lado lutar.
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