O pensamento fica redondo. É como se estivesse a ler-me repetidamente, o mesmo texto dia após dia. Será que o meu pensamento evoluiu assim tão pouco ao longo dos anos? Ou a realidade sobre a qual o pensamento é feito é que não muda, e até, recua?

Olhando transversalmente para as notificações que me vão caindo no telemóvel, as interjeições são as esperadas:
“tão mas eles até simularam que ele tinha uma faca!!”
“mas o polícia não atirou a matar para uma pessoa indefesa??”
“como assim legítima defesa???!! eles eram dois homens armados treinados”
“o Tribunal até extinguiu a suspensão de funções do polícia…”
“Com aquelas imagens todas!!??!”
Isto porque Bruno Pinto, o polícia que matou Odair Moniz apanhou apenas pena suspensa pelo crime, podendo até regressar às suas funções na psp.
Confesso que o espanto não me cabe. Não estava à espera de outro resultado.

As interjeições recepcionadas não são diferentes de quando Elson Sanches foi executado com um tiro a 10cm da cabeça, de quando Hugo Ernano (Candidato do Chega e GNR) matou uma criança de 13 anos ou, quando Musso foi morto à pancada.
O destino final desses casos foi igual para todos os executantes. Para a PSP também nada mudou, suas vítimas são sempre as mesmas e as zonas urbanas sensíveis, que atribui uma lei marcial onde moram os mais pobres e os não brancos, vão até ter um novo aprofundamento e designação com este governo.
Quando o estado falha em tudo e até mata, percebe-se que haja algum refúgio na justiça para aprendizagem colectiva, influenciar políticas, dar equidade e contrição sistémica a famíliares, amigos e comunidade das vítimas.
A capacidade dos militantes e da sociedade civil agarrarem em casos como o de Odair Moniz para exigir justiça, é parte do trabalho a realizar mas não se extingue per si nas decisões dos juízes.
Esta justiça também é filha de um sistema económico e político que criou os condenados da terra.
Durante todo este processo, pelo tratamento dos media, pelo tratamento dos agentes de justiça mesmo no prório tribunal a familiares, amigos e, comunidade do Odair; e, por fim, com esta decisão, percebe-se bem que a justiça não é para todos.
Não sei se perceberam, mas quem teve em julgamento este tempo todo não foi Bruno Pinto – um nome que poucos fixaram – , mas sim Odair Moniz e os seus.

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