O punho erguido de Ventura no momento de chumbo do pacote laboral apresentado pelo governo na assembleia da república, faz parte de uma encenação de vitória que não lhe pertence.

Essa encenação, mediatizada pelos meios do nosso descontentamento, seria absoluta independentemente da opção de voto do Chega para hoje. Por isso, já ontem o partido anunciava que o resultado seria uma vitória para os trabalhadores.
Assim, quer tivesse viabilizado com a alteração (insignificante para todos nós) de três/quatro items que poderia apresentar como ganhos para os trabalhadores, ou chumbando todo o pacote; a máquina do Chega e dos seus comparsas mediáticos fará de qualquer gesto uma vitória sua.
O Chega é um produto do sistema “neoliberal” (por miúdos: mais dinheiro para os mais ricos e menos para os outros todos), por isso não vamos ficar por aqui. A votação para chumbar o pacote laboral foi só uma dissimulação táctica. Ganhar espaço e tempo no exército de descontentes, induzindo campos ideológicos que tornem ainda mais irreversível o atentado às vidas de todos nós.
Ao mesmo tempo, lendo sondagens, percebendo o descontentamento generalizado para que, de simulação em simulação, de bluff em bluff, se possa tornar hegemonia absoluta.
A produção dessa hesitação na extrema direita ou nos sociais democratas deveu-se a uma mobilização popular visível nas várias manifestações, greves, piquetes, manifestos, desobediências, tascas, cafés, autocarros ou até nos actos de sabotagem em contexto laboral. O conceito das mudanças laborais a implementar pela AD alargou-se ao ponto de ter grande parte do povo como antagonista. E fundamentou-se através de vários actores:
- a CGTP e demais sindicatos na capacidade de reavivar a sua presença como sociedade civil: discutindo, mobilizando, manifestando e dando presença;
- Todos aqueles que lutam enquanto trabalhadores;
- Todos os trabalhadores (sindicalizados ou não) e não-trabalhadores que aderiram às manifestações, mobilizações diversas e inventaram outras formas de luta;
- Todos os que não ascendem, pela precariedade, à classificação de trabalhadores, com quotidianos que provam o futuro que querem para todos nós;
- Todos os que são contra o conceito de trabalho enquanto estatuto de produção da riqueza alheia;
- Todos os trabalhadores de algoritmo que até na greve geral tiveram de trabalhar pela dignidade de pôr comida na mesa ou enviar trocos para as suas famílias, muito mais alienados das formas de luta vigente;
- Todas as vítimas de violência policial e que serviram de escárnio aos olhos de muitos, desde os media aos supostos companheiros de luta.
- Todos os considerados pelos nossos governos como “excedentários” ou “expulsos” do sistema mas que resistem diariamente com filiações não institucionais.
O mundo presente não se coaduna às formas de governo e contra-governo a que nos habituámos. Por isso, procurar um actor hegemónico nesta vitória é entrar na mesma encenação que ensaiei no início. Não perceber isso é derrota certa. E se escrevi vitória ao longo do texto, foi quase como figura de estilo. Resta-nos só não parar, nem ficar na barricada que se alcançou, mas avançar.
Leave a comment